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27 de Julho de 2009 13:39  +  - Tamanho da fonte: 14

Menos estrangeiros na própria aldeia

Durante alguns anos – 15, para ser mais preciso – morei em São Raimundo Nonato. Por lá, ainda tenho familiares e um punhado de amigos. Infelizmente, fiquei órfão de d. Purcina, referência mais forte em minha vida errante. Deixaram-me também: Paredão, Maninho, Hamilton Barreto, Chico da Bernaldina, entre outros. Assim, cada vez que retorno à cidade, me sinto mais pobre, mais estranho, mais só. É certo que a Câmara Municipal de SRN, por iniciativa da vereadora Socorro Macedo, concedeu-me o título de Cidadão Sãoraimundense, honraria que não fiz por merecer. Mas o que me deixa constrangido é perceber que não sei nada, nadinha mesmo da vida dos meus conterrâneos. Sei apenas que gostam de festa, de cerveja, de umbuzada, de beiju com carne assada, de tatu ao leite de coco. Sei também que ostentam certo orgulho por terem nascido na terra que é “berço do homem americano”, mas nem por isso deixam de hostilizar a profa. Niède Guidon, cidadã que pôs SRN no mapa-múndi. Da vida política, eu poderia acrescentar que os sãoraimundenses são apaixonados, que fazem campanhas ruidosas e que, com raras exceções, elegem políticos de reputação duvidosa... Mas isso não é “privilégio” dessa brava gente. Acontece em toda parte.

A penúltima vez que visitei a cidade, em 2008, assustou-me o barulho dos carros de som, dos trios elétricos, das motos, aos milheiros, que cruzavam a cidade em todas as direções, conduzindo pessoas de todas as idades, nenhuma delas usando capacete. O trânsito caótico lembrava aquelas cidades malucas da Índia. Afora isso, havia lixo por toda parte e urubus em guerra com os vira-latas, disputando tudo o que tivesse cheiro de comida. Nunca em minha vida me senti tão deslocado, tão triste, tão só...

Na semana passada, o aniversário da irmã querida me levou a SRN. Preparei-me para o pior, já que, na cidade, realizava-se um “carnaval fora de época”, com os indefectíveis e onipresentes trios baianos. Logo na entrada, uma surpresa: a escultura monumental de uma seriema que, de tão perfeita, parecia prestes a cantar. Um pouco mais adiante, um terminal rodoviário decente e, pasmem, todo os motociclistas trafegando com capacetes. Não bastasse isso, as ruas estavam limpas e adequadamente sinalizadas. Num átimo, pensei: todo esse “milagre” deve ser apenas maquilagem para turista ver. Lembrei-me de que, no início do mês, a cidade fora sede do Primeiro Congresso Internacional de Arte Rupestre. Consta que o governo do Estado investiu pesado para “melhorar a imagem do Piauí lá fora”. De uma forma ou de outra, há mudanças significativas na cidade. Pra começo de conversa, o aeroporto, antiga aspiração da Niède Guidon, saiu do papel para tornar-se realidade palpável. Uma bela pista com 1600 metros está pronta.

De tudo o que vi, o que mais me animou foi a presença de uma professora, Samara Negreiros, à frente da Secretaria de Educação do Município. Conheço essa cidadã e sei do que é capaz. Espero que a cidade ajude-a a realizar o sonho que acalenta há muito tempo: melhorar o deplorável nível da educação em SRN. Decididamente, a cidade parece ter engatado uma marcha de força para sair da buraqueira. Como tenho cabeça e coração de professor, com as pequenas mudanças que vi, enchi-me de esperanças, e já me senti um pouquinho menos “estrangeiro” na cidade que, um dia, foi a minha aldeia.
Autor/Fonte:  Cineas Santos  |  Edição:  Cineas Santos

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