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20 de Julho de 2009 16:53  +  - Tamanho da fonte: 14

O meu boi morreu

Há duas perguntas que me faço com alguma frequência: – De que morreu o boi do Piauí? – Por que é tão pálida a sua presença na cultura piauiense? Se é verdade que o Piauí nasceu em torno de um punhado de currais de gado vacum, é estranho que o boi não seja presença marcante na vida cultural dessa brava gente. Não é preciso maior esforço para perceber que, em nossa literatura, é mínima a presença do boi. Não chega a meia dúzia o número de obras sobre o tema. Na música, continuamos a entoar a cantiga plangente: “O meu boi morreu/ que será de mim?/ manda buscar outro, maninha,/ lá no Piauí”.

No artesanato, a situação não é muito diferente: o couro ainda é pouco utilizado como matéria prima. O boi deveria estar, de preferência, na mesa do piauiense. Infelizmente, o preço da carne torna tal prazer proibitivo ao grosso da população.

Certa feita, num encontro sobre folclore, afirmei: o boi piauiense atravessou o Parnaíba, fez morada no Maranhão e já chegou a Parintins, no Amazonas, onde brilha esplendorosamente nas cores azul e encarnado. No Piauí, ficou apenas o eco esmaecido do seu berro...

Com firme suavidade, a Profa. Cecília Mendes contestou minha afirmação com um argumento que, à época, não me pareceu convincente. No entendimento dela, o bumba meu boi do Maranhão sofreu profundas alterações para ajustar-se ao gosto dos turistas; quanto a Parintins, a festa do boi-bumbá tornou-se uma espécie de desfile de escola de samba à maneira dos carnavais carioca. Terminou sua tese afirmando: “Nos subúrbios da capital piauiense, o bumba meu boi está mais vivo do que nunca e com a garantia de que vai perdurar, uma vez que há muitas crianças e adolescentes participando da brincadeira”. Para arrematar sua tese, afirmou: “Existe, no Teatro do Boi, no Matadouro, o Boi Mirim Estrela do Matadouro no qual as crianças aprendem a brincar desde cedo”. Cecília estava com a razão.

Nos dias 11 e 12 do corrente, em frente ao “Teatro do Boi”, no Matadouro, realizou-se a 9ª edição do Encontro de Bois de Teresina, festa que contou com a participação de 20 grupos, dos mais diversos pontos da cidade. Embora dispondo de escassos recursos financeiros, os brincantes demonstraram que, com disposição, engenho e arte, é possível apresentar um espetáculo de rara beleza, sem fugir à tradição. Como que a confirmar a tese da Cecília, todos os grupos apresentaram um número significativo de crianças e adolescentes.

Na abertura do evento, um brincante literalmente roubou a cena: era o garoto Thalysson Gabriel, de apenas um ano e nove meses de idade que, embora ainda não saiba pronunciar corretamente a palavra boi, já é capaz de ensaiar alguns passos no ritmo dos tambores.

Sob a batuta do músico e pesquisador Vagner Ribeiro, o 9º Encontro de Bois de Teresina levou uma multidão de aproximadamente 8 mil pessoas a uma festa que muitos já consideravam sepultada. Como não havia premiação “para o melhor”, o clima de competição deu lugar a um belo encontro de confraternização.

Parece que já está na hora de repensarmos a presença do boi em nossa cultura. Queremos mais boi na literatura, na música, no artesanato, no folclore e, principalmente, na mesa dos piauienses.Assim seja.
Autor/Fonte:  Cineas Santos  |  Edição:  Cineas Santos

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