Marco Vilarinho, especial para o Portal O DIA
Fotos de Thiago AmaralO domingo, 13 de junho, amanheceu claro - com um céu infinitamente azul, como se um manto imaculado tivesse deslizado sobre a cidade, através de mãos divinas, em sinal de gratidão a milhares de pessoas: crianças, jovens e idosos, gente de todos os pontos da cidade, se fundiram num mar verde-amarelo por amor ao próximo, ao mesmo tempo em que lembravam a participação do Brasil na Copa do Mundo 2010: era a 15ª Caminhada da Fraternidade, com a bola toda.
Uma missa concelebrada no adro da Igreja de São Benedito, presidida pelo arcebispo metropolitano de Teresina, Dom Sérgio da Rocha,marcou o início do acontecimento que, anualmente, movimenta Teresina numa grande corrente de solidariedade. Entoando cânticos e orações, um público estimado em 70 mil pessoas fez da 15ª edição da Caminhada da Fraternidade a mais empolgante de sua história: uma autêntica aula – quase duas horas, de 8h40min a 10h30min - de solidariedade e civismo, aliada à descontração que tanto caracteriza a alma do teresinense, independente de qualquer situação.
Diz a tradição popular que na casa de cada nordestino há sempre uma porta que se abre para receber o mais humilde; para alimentar aquele mais carente, aquele que não tem pão; aqueles sem voz e sem vez, como tão bem definiu o cardeal Dom Hélder Câmara os menos afortunados, os esquecidos pelo egoísmo humano. O que se viu durante toda a caminhada foi justamente essa porta aberta para receber o irmão necessitado; o que se viu foi o abraço fraterno de uma multidão que parecia carregar consigo as rosas da caridade, mencionadas por Santa Terezinha do Menino Jesus.
Um grande exemploToda caminhada começa com o primeiro passo. Foi apoiada nessa verdade que a aposentada Ana Maria Lima Soares, 79, que sofre de artrose, encarou o percurso da Caminhada da Fraternidade: desceu a Avenida Frei Serafim, atravessou a ponte Juscelino Kubitchek, sobre o Rio Poti, percorreu trecho da Avenida João XXIII, entrou pela Avenida Nossa Senhora de Fátima, fez o retorno próximo à Universidade Federal do Piauí e ainda teve “gás” para dançar com o Afoxá, grupo de afoxé que se apresentou no palco armado na Avenida Ininga, exaltando a África do Sul, sede da Copa do Mundo 2010. “Ah, meu filho, eu estou tão feliz; andei tudo isso e não senti dores nas pernas; bendita caminhada”, comemorava.
Unidos no mesmo ideal, dona Maria Oliveira, 100 anos, dona Rosa, 96 anos, Maria Cecília Batista, 26, Jacqueline Raiane, 19, Francisco Frutuoso, 10 , e Caio Lages, 15, caminharam juntos, cada um com seu estilo – mas todos centrados no mesmo ideal: ajudar a quem precisa. Enquanto Maria Oliveira e Rosa seguiam o percurso cercadas por familiares, cantando e orando, Jacqueline e Maria Cecília – com adereços que lembravam penteados moicanos – dançavam todos os ritmos que saiam dos carros de som, com uma galera pra lá de animada. Já os primos Francisco e Caio optaram pelas bicicletas: “Porque a gente ajuda e ainda se diverte”, disseram.

O funcionário público Carlos Henrique Santos, com a esposa Vera Maria e os filhos Jonas e Beatriz, era só entusiasmo: “Nunca perdi uma caminhada; sempre procuro dar esse exemplo a meus familiares para que também tenham esse gesto de caridade, porque se todos nós nos unirmos o pouco vira muito, e podemos salvar muitas vidas”, disse, com a aquiescência da mulher. Cantarolando as músicas, os sambas e forrós que ecoavam pelas avenidas, a comerciária Leda Maria acentuava a necessidade da participação de todos em evento dessa natureza: “Acho importante a participação; é um ato de amor, uma espécie de proteção a quem não tem nada”, disse.
No mesmo barcoO pedreiro James Santana, a dona de casa Maria Alcina Barros, a costureira Sandra Rosa, o médico Vespasiano Rubin Nunes, o senador Mão Santa, o prefeito de Teresina, Elmano Ferrer , o governador do Estado, Wilson Martins, e a doméstica Raimunda Santos faziam parte da massa verde-amarela que enfeitou, por algumas horas, as Avenidas Frei Serafim e Nossa Senhora de Fátima. Não havia distinção: Vespasiano, Wilson Martins, Elmano Ferrer, Raimunda e tantos outros estavam ali defendendo as mesmas cores, a mesma bandeira. A partir do pipocar dos foguetes que anunciavam o início da jornada, todos se despiram de seus cargos para formar um gigantesco exército da solidariedade.


Do alto de um carro de som, o padre Tony Batista exaltava a população a olhar para os mais humildes; conclamava a todos a participarem de uma grande cruzada contra o preconceito, contra o egoísmo, a favor da bondade, da caridade, do bem comum. “A AIDS é nossa inimiga, mas os aidéticos são nossos irmãos, portanto não podemos alimentar qualquer espécie de preconceito. A hanseníase é nossa inimiga, mas os acometidos dessa doença são nossos irmãos; todos eles precisam de nosso apoio, da nossa compreensão, do nosso amor”, ressaltou. As crianças, os jovens e os idosos também foram lembrados pelo padre, que pediu mais respeito por eles, lembrando o amor imensurável de Jesus Cristo por toda a humanidade.


BenefíciosOs recursos angariados com a Caminhada da Fraternidade são revestidos para instituições de caridade assistidas pela Ação Social Arquidiocesana, da Arquidiocese de Teresina. Neste ano serão beneficiados o Centro Maria Imaculada - que trabalha pela reabilitação de hansenianos, desenvolvendo trabalho fundamental a essas pessoas: além da cura, o fim do preconceito – e a Casa Frederico Ozanan, instituição sem fins lucrativos que ampara idosos.
O Lar da Misericórdia, que abriga pessoas carentes que vêm a Teresina em busca de tratamento de saúde, também faz parte das organizações beneficiadas, bem como o Lar da Fraternidade, casa de apoio aos portadores de HIV. O Projeto Periferia, com mais de 20 anos de atuação, é outra instituição que tem muitas de suas ações desenvolvidas, graças aos recursos oriundos da Caminhada da Fraternidade.
Confira mais imagens da 15ª Caminhada da Fraternidade:



















